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Sobre a pureza da água, e as bebidas elaboradas com água de icebergues

 
 
Cerveja da marca Iceberg, elaborada com água de icebergues

 
Água Glace, diretamente obtida de icebergues


Um interessante artigo publicado na edição de Outubro de 2013 da revista Courrier Internacional intitulado "Caçar icebergues de machado e carabina", constitui um bom pretexto para se pensar um pouco em como o conceito técnico de pureza é interpretado pela sociedade em geral de modo bastante diferente do que um engenheiro químico por ele entende.

* * *

No referido artigo, pode ler-se:

"Todos os verões, este homem de 53 anos, descendente de uma família de marinheiros, anda pelo Atlântico Norte a apanhar blocos de gelo que, tendo-se separado dos glaciares da Gronelândia, flutuam para sudoeste. Um fabricante de vodca, uma cervejeira, uma empresa de vinhos e um produtor de água engarrafada são alguns dos seus clientes.


Estas empresas compram a água retirada nos glaciares e comercializam-na como a mais pura do planeta. Se a procura não para de aumentar, a recolha dos blocos de gelo é cada vez mais complicada
."

* * *

É indiscutível que a água congelada nos glaciares possa ter um valor comercial privilegiado junto dos consumidores, que a vêm como um produto premium. Tendo uma abundância e proveniência restrita, compreende-se o estatuto especial que o consumo de água com esta origem possa ter junto do consumidor, final mas no que toca a alegações de pureza, o argumento tem um quê de ilusório e impreciso.

Se é verdade que a água dos icebergues tende a apresentar "naturalmente" isenção de minerais e contaminantes, podemo-nos perguntar se o modo artesanal como é recolhida e transportada (recurso a "redes, braços hidraúlicos, carabinas, motoserras") não poderá anular essa alegada pureza.

Em segundo lugar, muitas são as fábricas que recorrem a processos como a desionização ou destilação de água, os quais constituem formas expeditas de se obter a água "mais pura do planeta". Do ponto de vista técnico, água pura é aquela que não apresenta mais nada do que a molécula H2O  isso consegue-se sem necessitade de viajar para onde haja icebergues: basta ter o equipamento necessário e uma fonte de água da rede.

É a estrita satisfação desta condição que garante que a água é pura, não a sua proveniência, estatuto ou escassez. Bem vistas as coisas é possível sintetizar água pura nas fábrica de bebidas que são clientes dos icebergues.

É sabido que para o cliente final, a pureza resulta da não artificialidade, isto é, da minimização da intervenção ou impacto humano, mas isto nada tem de técnico, e como tal acaba por sugerir um efeito placebo, já que conduz o consumidor a convencer-se de que está a consumir algo que na realidade nada tem de especial ou distinto.

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