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Sobre a investigação que se faz, em engenharia química, em Portugal - Editorial (Fevereiro 2014)



Qualquer engenheiro químico que realize uma investigação vocacionada para a implementação industrial, sabe que, mais cedo ou mais tarde,  terá que responder a questões (Q) que normalmente não se inscrevem muito no domínio científico convencional, nomeadamente:


Q1) quanto terei de despender para implementar este processo/tecnologia (investimento)?
Q2) quanto me custará operar este processo/tecnologia ao longo do tempo?
Q3) quanto produzirei ao longo do tempo e que riqueza a minha produção gerará?

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A postura perante estas questões define muito sobre a investigação que se faz, sobre quem a faz, e sobre os frutos a que se pode almejar. Vejamos:

Em Portugal, pouca ou nenhuma investigação em engenharia química é feita pela indústria e, desta, pouca ou nenhuma é feita dentro de portas da própria indústria. Assim, a investigação é predominantemente realizada em instituições universitárias e laboratórios associados. Esta investigação é eventualmente paga pela indústria, mas o Estado/União Europeia costumam cofinanciar muitas das vezes. O grande corpo da investigação a que me refiro acaba por surgir na forma de teses de Mestrado dos finalistas do Ensino Superior e dos trabalhos realizados no âmbito de teses de doutoramento (Bolsas de Doutoramento em Empresas), estas últimas mais raras, porém.

Creio não estar a inventar ao avançar dois estereótipos (E) que me parecem ser recorrentes sobre a investigação que ambos os lados desta parceria indústria/universidade preconizam:

 E1) Estereótipo sobre o parceiro universitário: dizem as más-línguas que a investigação universitária peca por recorrentemente se esquivar a responder às 3 questões acima enunciadas, e não pautar a investigação por uma estratégia pragmática que atende aos custos de investimento, aos custos de operação, e à produtividade. Esta ideia fundamenta a opinião muito veiculada de que na Universidade se vive afastado da realidade, e que muito do que se faz é lixo e para nada serve ou virá algum dia a servir.

E2) Estereótipo sobre o parceiro empresarial: dizem as más-línguas a que a investigação que as empresas querem fazer é toda ela debruçada sobre cifrões e que qualquer passo deve ser dogmaticamente ajuizado à luz do retorno financeiro que trará, ou seja, é uma investigação que arrepia vigorosamente caminho no sentido dos cifrões, nem que isso implique prejudicar a médio prazo o capital de conhecimento que poderá converter-se em capital económico. Esta ideia fundamenta a opinião de que as empresas/Indústria não conseguem investigar como deve ser porque tropeçam na sede de lucros, cegando-se ao estabelecimento de uma atmosfera que busca conhecimento antes de buscar lucro.

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A este respeito, e porque este texto é uma exposição e não uma declaração ou crítica expressa a qualquer dos lados, julgo oportuno deixar algumas perguntas (P) pertinentes sobre este assunto:

P1) Pode uma investigação imediatista de resultados ter o sucesso garantido? Isto é, o pragmatismo do cifrão só faz bem à investigação?
P2) Deve uma investigação universitária que não responde a Q1),  Q2),  Q3) passar a responder-lhe? Como enquadrar a ciência mais fundamental, que suporta a ciência  mais aplicada?
P3) Em que medida é que parceiros que se revêm em E1) ou E2) conseguem falar a mesma língua de investigação, encontrar o melhor de dois mundos? Quem cede, e porquê?
P4) Deve-se partir a sigla I&D de modo que a investigação seja feita mais ao jeito da Universidade e o desenvolvimento mais ao jeito da Indústria? Até onde vai um e começa o outro?
P5) Quem faz a intermediação em casos de mentalidades antagonistas e por vezes conflituantes? A quem cabe o voto de qualidade em caso de empate: Universidade, Estado, Indústria?
P6) O que podem as Universidades fazer para que a indústria faça mais investigação própria? Isso interessa-lhe? Porquê?
P7) O que podem as empresas fazer para que a Universidade gere mais indústria? Isso interessa-lhe? Porquê?
P8) Qual o papel do Estado nesta dinâmica: financiar parcerias (bolsas, projectos) em jeito de empurrão, ou encontrar outras formas de incentivo, como isenções que premeiem fortemente o sucesso/bom curso destas parcerias? Como se deve avaliar a qualidade de uma parceria Indústria/Universidade?
P9) Quem deve mandar na investigação que a indústria tanto realiza dentro da Universidade: a empresa ou a própria instituição de ensino superior? O capital manda mais, ou o conhecimento tem a última palavra?

Marcelo Melo
Editor do BEQ.

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