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Sobre as múltiplas descobertas acidentais na Química, e o papel da sorte e da sagacidade - Editorial (Maio 2014)



A leitura do livro "Serendipity: Accidental Discoveries in Science", da autoria de Royston M. Roberts, tem sido um recurso importante para que neste blogue tenham aparecido publicações sobre descobertas acidentais importantes que ocorreram no universo da área científica da química. A palavra 'serendipidade', que existe oficialmente na língua portuguesa, foi inventada para qualificar descobertas feitas fortuitamente, por combinação de sorte e sagacidade.

Enquanto alguns casos de descobertas acidentais sempre vão sendo conhecidos, a grande revelação deste livro é perceber a quantidade de produtos e tecnologias que surgiram com traços acidentais e assentes em resultados inesperados. Nos últimos meses o BEQ já deu conta dos casos de serendipidade relacionados com a densidade, a descoberta de poços de hélio, a síntese da ureia, a fotografia, a pílula, os edulcorantes e o polietileno. Contudo, e para que se perceba a quantidade impressionante de descobertas não planeadas, podem-se citar mais exemplos do livro, tais como elementos químicos como oxigénio, iodo; o óxido nitroso e o éter como anestésicos; a borracha natural e artificial; o processo de vulcanização; os corantes sintéticos como a alizarina ou o índigo; a dinamite; a seda artificial Rayon; as reações de Friedel-Crafts; a insulina; os antihistamínicos; a quimioterapia; o LSD; o teste de Papanicolaou; os raios X; a radioactividade; a fissão nuclear; os antibióticos penicilina e sulfamidas; o náilon; o teflon; fármacos psicoactivos, a química orgânica assente no fósforo e no boro; a síntese dos alcenos; o velcro; e o ADN.

Importa referir que algumas das serendipidades citadas foram fortemente premiadas pela comunidade científica internacional.  De facto, várias das descobertas citadas proporcionaram aos seus inventores galardões como prémios Nóbel e muita reputação académica e industrial. 


Como o autor do livro muito bem refere, não há nada de desprestigiante em assumir, como muitos fizeram, a existência de sorte e de contornos não planeados nas descobertas. Mais do que isso, importa frisar que a sagacidade do inventor é crucial para que um inesperado se transforme numa grande descoberta. Em muitos dos casos foi o interesse e a curiosidade pelos maus resultados, e a energia gasta a tentar compreender o que em verdade aconteceu, o que levou a que se conseguisse consolidar e controlar esse resultados, e moldá-los no sentido desejado e útil.

Ao fazer emergir a importância dos erros e dos nulos experimentais,  a leitura deste fez-me recordar uma ideia que alguns acalentam, que é a possibilidade de virmos a ter uma base de dados pública na qual os maus resultados experimentais, isto é, os falhanços, possam ser estudados por quem deseje dedicar-se a estes e procurar entendê-los melhor. Claro que para um erro experimentais seja posteriormente devidamente estudado, é extremamente importante fazer um bom registo das experiências, rico em detalhes. Por isso são tão importantes os cadernos de experiências e os relatórios: disciplinam no sentido do registo dos dados e da explicação dos fenómenos observados.

No fim de contas, e bem vistas as coisas, se os erros são muitas vezes responsáveis por perdas dinheiro e tempo, as quais nos podem valer, por exemplo um despedimento, a verdade é que podem igualmente constituir a semente da próxima descoberta que mudará o mundo. Vale a pena reflectir sobre isto.


Editor do BEQ.

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