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Sobre o problema de scale-up de população e consumo no mundo, à luz da quezília Greenpeace-Shell-Lego - Editorial (Outubro 2014)



Nas últimas semanas acompanhei com atenção e interesse a quezília entre os ambientalistas da Greenpeace e a histórica petrolífera holandesa Shell, em torno da não consensual exploração de petróleo no Ártico. Sendo este um fórum de engenharia química em língua portuguesa, que também existe para cumprir o objectivo de aproximação da área técnica à sociedade, dedico um editorial a este assunto, e aproveito para promover um debate que interessa a todos.

(Para quem desconhece os trâmites da disputa, referia-se que a Greenpeace atacou a Shell através de um vídeo, que se usa peças lúdicas da marca Lego  (com quem a Shell tem uma parceria em brinquedos) para mostrar, em jeito de desenho animado Lego, como a Shell está a contribuir para a morte de animais, aquecimento global, subida do nível dos mares, etc. com o impacto ambiental que cria, e que a Lego apoia tal forma de estar.)

Não querendo com as próximas linhas ser sectário, permitam-me que problematize o assunto na óptica de quem tem apreço técnico pela indústria (petro)química:

1) Se há coisa que um engenheiro químico percebe, é o conceito de scale-up. Não podemos discutir globalmente o que a Greenpeace condena sem frisar dois problemas também eles de escala mundial (tão globais como o aquecimento global): o scale-up  populacional e o scale-up do consumismo. Algo que a globalização veio casar de uma forma arrebatadora. Está por provar que haja algo de moralmente errado em extrair petróleo onde quer que ele esteja: o problema é quando o ritmo a que a sociedade “pede” consumo cria uma pressão colossal para o encontrar e vender. O que pensaríamos se a Shell deixasse secar intencionalmente o reservatório dos postos de abastecimento por motivos ambientais, e calhássemos de ser os próximos na fila para abastecer o carro? Não há qualquer interesse ou graça nisto. Vivemos na suposição de que só por falta de dinheiro é que não compramos algo, nunca por estar esgotado por motivos de cautela ambiental. Este é o mudo axioma por todos abraçado.

2) A indústria (petro)química mundial é, por assim dizer, um grande reactor com um sistema de controlo que estimula a entrada de matéria-prima no sistema em função do setpoint de saída de produtos para o qual tem de convergir. (Este setpoint é em larga medida condicionado pelos próprios problemas de scale-up com o que o mundo se depara). A acção da Greenpeace, dentro da sua estratégia de intervenção incide sobre o ataque/boicote à vertente da entrada de matéria-prima nesse grande reactor que é a indústria (petro)química mundial. Fá-lo com sucesso discutível, porque o setpoint do grande sistema de controlo da indústria química continua a funcionar no sentido da entrada de matéria-prima no sistema. É uma luta nunca ganha, a do Greenpeace, o sistema PID sempre compensará as coisas para suprir o que pede para ser suprido. (Uma questão: quantas pessoas abasteceram o carro nos postos Shell nos dias seguintes a terem colocado um “like” no vídeo da Greenpeace? Eis aqui a força da setpoint)

3) Embora seja aparentemente contra a Shell, a Greenpeace não pode ser contra o engenheiro químico. Um engenheiro químico é tão responsabilizável pelo scale-up da população e/ou do consumismo como a Greenpeace o é. Assim, a engenharia química, na pessoa dos profissionais (mas também das duas empresas) não pode forma alguma deixar que a tornem o bode expiatório de problemas globais que a indústria química é chamada a resolver irrigando as linhas comerciais com os produtos desejados, nas proporções que tiver de ser para todos terem o que querem comprar. Direitos adquiridos...

Claro que a poluição não serve os interesses de ninguém, mas não ter os produtos considerados indispensáveis para viver a vida moderna na sua plenitude também não poderá interessar a ninguém. É uma autêntica batata quente, esta, e só por distração ou maldade dá para cair no esquema de identificar bodes expiatórios individuais.

Editor do BEQ.

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