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Sobre comunicar engenharia em Portugal, e o trabalho de casa que precisa de ser feito - Editorial (Janeiro 2017)




No passado mês de Outubro de 2016 teve lugar na delegação Norte da Ordem dos Engenheiros (OERN) uma conferência subordinada ao título Comunicar Engenharia.

Sumariamente, o convidado Carlos Magno chamou a atenção para os prós e contras da atual situação da engenharia portuguesa a nível da perceção pública, referindo que o engenheiro não granjeia  visibilidade como outras classes profissionais, mas isso confere-lhe ao mesmo tempo uma certa isenção e menor desgaste em relação à confusa realidade da comunicação social, onde muitas vezes todos falam e ninguém tem (derradeira) razão.

Magno profeticamente deixou o vaticínio de que o tempo do domínio da engenharia no panorama político e público está para chegar, depois de uma certa falência da disciplina de Economia nessa posição de destaque, bem como do Direito. Todavia, Magno chamou também a atenção para o modo como a terminologia da engenharia tem vindo a ser sequestrado por outras profissões, que a usam em termos como "engenharia financeira", aproveitando-se da utilidade e crédito dos seus significados.

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Desde já saudando esta iniciativa da OERN, na qualidade de editor deste blogue  e de engenheiro químico que ouviu na íntegra o debate, gostaria de tecer algumas considerações sobre a temática em questão.

Para começar, frisar que o BEQ encontra-se desde 2010 num esforço de divulgação engenharia química em língua portuguesa. Depois, referir que mais do que competir com outras profissões, a divulgação de engenharia química faz-se pela demarcação das fronteiras técnicas quando elas, existem, querendo com isto dizer que a melhoria da consciência e reconhecimento da engenharia portuguesa joga-se muito no entendimento das suas especialidades (química, mecânica, informática) , e ainda no aproveitamento das oportunidades noticiosas que vão surgindo para materializar a divulgação do saber técnico e a decifragem das implicações e razões de aspectos pertinentes para o cidadão comum, numa  linguagem que este possa perceber.

Como exemplo disto, chamo a atenção para o surto de Legionella em Portugal, ocorrido em 2014, que foi uma oportunidade perdida para a engenharia química portuguesa se revelar ao país, nomeadamente explicando pelo menos porque motivo as torres de refrigeração são propícias à disseminação de Legionella, de um ponto de vista técnico.

Antes de concluir, vou talvez um pouco mais longe, dizendo que as referidas oportunidades para a engenharia se afirmar jogam-se também na criação de interesse ou no estímulo à consciência coletiva pelas infraestruturas de engenharia que existem, nomeadamente fábricas e seus aspectos  (capacidade de produção, processos de produção, fluxos materiais inter-fábricas como no pólo Matosinhos-Estarreja). Por vezes, este trabalho passa por coisas tão simples e banais como comentar uma chaminé ou explicar o que são "aquelas torres com fogo nas refinarias".

Assim, conclui-se que a comunicação em engenharia, com destaque para a engenharia química, só será melhorada se existir um esforço contínuo de fazer emergir publicamente essas áreas enquanto realidade profissional e técnica, e ainda se tal esforço se fizer pela positiva mais do que pela exploração dos aspetos negativos como acidentes ou agressões ambientais.

Editor do BEQ.

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