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Sobre uma análise comparativa da petrolífera portuguesa GALP e da congénere espanhola MOEVE, à luz dos planos de fusão de ambas as empresas



À luz dos planos de fusão que começaram a ganhar tração em 2026, tornou‑se particularmente relevante analisar lado a lado a petrolífera portuguese Galp e a sua congénere espanhola Moeve, avaliando a dimensão e o desempenho financeiro de cada uma mas também os projetos de novos combustíveis que estão envolvidas. Esta comparação ajuda a perceber não só o ponto de partida de ambas as empresas, mas também o equilíbrio de forças e o potencial impacto de uma integração.


Comparação de desempenho financeiro

Do ponto de vista financeiro, à luz de informação relativa ao ano de 2025, estas são as observações mais prementes:

  • A Galp apresenta receita ligeiramente inferior à Moeve, mas maior rentabilidade operacional.  
  • O EBITDA da Galp (~€3,7 B) é mais do que o dobro do da Moeve (€1,685 B).  
  • Em lucro líquido, a Galp também lidera (€1,1–1,3 B vs. €686 M ajustado da Moeve).  
  • A Galp investe mais, com capex de ~€3,0 B face aos €1,151 B da Moeve.  
  • Ambas exibem alavancagem semelhante, com Dívida/EBITDA entre 1,6x e 1,8x.

A diferença de eficiência operacional entre a Galp Energia e a Moeve é significativa e estrutural, refletindo-se sobretudo nas margens EBITDA. Apesar de gerar menos receita, a Galp apresenta uma margem muito superior, sustentada por ativos upstream competitivos e uma gestão disciplinada de custos. A Moeve, com maior volume de negócios, revela margens mais comprimidas devido ao peso da refinação e da petroquímica, atividades tipicamente mais sensíveis ao ciclo económico. Esta disparidade traduz-se numa capacidade muito superior da Galp para converter receita em resultados e cash flow. Em termos práticos, a Galp extrai muito mais valor por unidade de negócio do que a sua concorrente.

Em termos de número de trabalhadores, a diferença entre a Galp Energia e a Moeve é clara e estrutural:

  • Galp: 7 095 colaboradores;
  • Moeve: cerca de 11 000 colaboradores;

Ou seja, a Moeve tem aproximadamente +50% mais trabalhadores do que a Galp.

A Moeve apresenta uma estrutura mais diversificada, combinando energia (refinação e comercialização), petroquímica e upstream, o que lhe confere amplitude industrial mas também maior exposição a ciclos económicos voláteis, especialmente no segmento químico. Já a Galp Energia assenta numa cadeia de valor mais focada, com forte peso do upstream de baixo custo (Brasil e novos projetos) complementado por refinação, comercialização e um braço crescente de renováveis. Enquanto a Moeve distribui a geração de valor por vários segmentos, a Galp concentra-a em ativos mais rentáveis e resilientes. A presença relevante da petroquímica na Moeve pode penalizar margens em fases de baixa do ciclo. Assim, a Galp revela uma estrutura mais orientada à eficiência e à geração consistente de caixa.


Projetos da GALP em combustíveis renováveis: biodiesel, HVO/SAF e H2 verde

A Galp e a Mitsui constituíram uma joint venture com participações de 75% e 25%, respetivamente, com o objetivo de produzir e comercializar biocombustíveis avançados, materializada na construção de uma unidade de produção com capacidade de 270 ktpa, a instalar junto à refinaria de Sines.

A unidade terá capacidade para produzir gasóleo renovável (óleo vegetal hidrotratado – HVO) ou combustível de aviação sustentável (SAF), apresentando flexibilidade operacional para alternar entre ambos os produtos em função das condições de mercado. Quando em operação, permitirá evitar cerca de 800 ktpa de emissões de gases com efeito de estufa face às alternativas fósseis. A entrada em operação está prevista para o final de 2026, com um investimento total estimado em cerca de €400 m, assumindo a Galp o papel de operador.


Atualmente, a Galp já produz gasóleo renovável (HVO) numa unidade de hidrogenação na refinaria de Sines, através do co-processamento de óleo vegetal com gasóleo, originando um biocombustível com  caraterísticas semelhantes ao gasóleo mineral. Em 2025, a produção desta unidade atingiu cerca de 35 kton, o que equivale a evitar 115 kton de emissões de CO2. 

A Galp detém igualmente a Enerfuel, uma unidade  industrial localizada em Sines dedicada à produção de biodiesel FAME (Fatty Acid Methyl Ester), produzido integralmente a partir de gorduras animais e óleos alimentares usados, tendo registado uma produção de cerca de 18 kton em 2025. Esta atividade reforça a experiência da Galp no mercado de biocombustíveis e na respetiva cadeia de valor. Em 2025, no âmbito da Diretiva das Energias Renováveis (RED) da União Europeia, a Galp incorporou 13% de biocombustíveis no conteúdo energético em Portugal e 11,5% em Espanha.


Projetos da MOEVE em combustíveis renováveis: HVO/SAF e H2 verde

A Moeve está a desenvolver um grande projeto de biocombustíveis 2G em Huelva, com produção de HVO e SAF prevista para 2026.  A capacidade poderá atingir cerca de 1 milhão de toneladas/ano, posicionando-a como um dos principais hubs do sul da Europa. 

O hidrogénio verde, lidera o projeto Andalusian Green Hydrogen Valley, com ambição de até 2 GW de eletrólise. A primeira fase (c.300 MW) já tem decisão de investimento e apoio europeu relevante.



Fontes: Relatório Integrado de Gestão Galp 2025 Yahoo Finance + Safinvestor + Moeve