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Sobre a empresa Boston Metal; a produção de aço por eletrólise de óxidos fundidos (MOE); o piloto no Brasil; e a concorrência do H2 verde no aço

A Boston Metal foi fundada em 2012, como spin‑off do MIT, a partir de investigação conduzida desde meados dos anos 2000 pelo professor Donald Sadoway, que estudava eletrólise de óxidos fundidos para produção de metais. A empresa foi inicialmente criada sob o nome Boston Electrometallurgical Corporation e mais tarde renomeada para Boston Metal. O seu objetivo era transformar em tecnologia comercial um conceito que vinha sendo desenvolvido academicamente desde cerca de 2006–2008, quando surgiram os primeiros artigos científicos sobre eletrólise de óxidos fundidos (MOE) aplicada ao ferro. A empresa conta com investimentos de grupos como ArcelorMittal, Vale e Bill Gates (que menciona a empresa no seu livro Como evitar um desastre climático). 

Fonte: MIT


 

O processo MOE Steel tem origem em investigação do MIT que culminou numa patente fundamental registada em 2013, intitulada “Molten Oxide Electrolysis for Ironmaking”, que descreve o uso de ânodos inertes e eletrólise de óxidos fundidos para produzir ferro metálico sem emissões de CO₂. A tecnologia evoluiu a partir de trabalhos anteriores sobre eletrólise de alta temperatura e foi refinada ao longo da década de 2010, com demonstrações laboratoriais e pilotos pré‑comerciais. O princípio central — eletrólise direta de óxidos metálicos a temperaturas superiores a 1600 °C — é descrito em estudos técnicos que analisam a viabilidade e os desafios do processo. 

Fonte:  Allanore, A., Yin, L. & Sadoway, D. A new anode material for oxygen evolution in molten oxide electrolysis. Nature 497, 353–356 (2013).

Fonte: Wiencke, J., Lavelaine, H., Panteix, PJ. et al. Electrolysis of iron in a molten oxide electrolyte. J Appl Electrochem 48, 115–126 (2018).

Fonte: Allanore, A., Ortiz, L.A. and Sadoway, D.R. (2011). Molten Oxide Electrolysis for Iron        Production: Identification of Key Process Parameters for Largescale Development. In Energy Technology 2011

A empresa está a instalar a sua primeira unidade comercial no Brasil, no município de Coronel Xavier Chaves (Minas Gerais). Inaugurada em março de 2024, esta unidade é a primeira do mundo a operar industrialmente com a tecnologia de eletrólise de óxidos fundidos, focada na extração seletiva de metais de alto valor, como nióbio e tântalo, a partir de rejeitados de mineração. A planta utiliza eletricidade de fonte renovável e é apresentada como um marco na aplicação comercial do MOE, validando a tecnologia em escala industrial e preparando o caminho para futuras unidades dedicadas à produção de ferro metálico.

Fonte: Boston Metal



Apesar do entusiasmo, o MOE enfrenta concorrência de outras rotas tecnológicas para descarbonizar o aço. A mais avançada é o Ferro de Redução Direta (DRI) com hidrogénio verde, exemplificada pelo projeto HYBRIT, liderado pela SSAB, LKAB e Vattenfall, que já produziu aço livre de fósseis em escala piloto e planeia produção comercial antes de 2030. Outras empresas, como a H2 Green Steel, também avançam com projetos industriais baseados em hidrogénio. Estes desenvolvimentos conferem ao hidrogénio‑DRI uma vantagem temporal face a soluções ainda emergentes como o MOE.

Fonte: Manufacturing Digital

Quanto às críticas técnicas ao MOE, análises independentes sublinham desafios significativos: a necessidade de operar a temperaturas superiores a 1600 °C, a dificuldade de desenvolver ânodos verdadeiramente inertes e duráveis, e a incerteza quanto à eficiência energética global e aos custos em larga escala. Estudos sobre eletrólise de óxidos fundidos destacam problemas de corrosão, estabilidade dos materiais e consumo energético elevado, que ainda estão em fase de investigação e demonstração. Estas limitações são apontadas como barreiras que a tecnologia precisa superar antes de competir diretamente com rotas já demonstradas industrialmente.

Fonte: Contrary Research