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Sobre a refinação de petróleo no mundo em 2024, e os perfis das várias nações no (des)equilíbrio entre produção vs. refinação petrolífera

O Boletim Estatístico Anual (ASB) é um documento da OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) que contém cerca de 100 páginas de tabelas, gráficos e figuras que detalham as reservas mundiais de petróleo e gás, a produção de petróleo bruto e derivados, as exportações, a refinação, os navios-tanque, bem como dados económicos e outros. Foi analisado o documento de 2025, que reporta informação de 2024.

Em 2024, o throughput mundial de refinação atingiu cerca de 85,97 milhões de barris por dia, refletindo um nível elevado de utilização da capacidade instalada a nível global, ainda que com fortes assimetrias regionais e nacionais.

O ranking é claramente dominado por um pequeno grupo de países. Os cinco maiores refinadores do mundo em termos de throughput são: Estados Unidos (≈16,6 mil barris/dia, Mb/d), China (≈14,3 Mb/d), Rússia (≈5,35 Mb/d), Índia (≈5,3 Mb/d) e Coreia do Sul (≈3,4 Mb/d). Em conjunto, estes cinco países representam bem mais de metade do total mundial, evidenciando a forte concentração da atividade de refinação nas grandes economias industriais e energéticas.

O Brasil surge numa posição de relevo intermédio, com um throughput de cerca de 2,0 Mb/d, colocando-se no top 10 mundial. Isto confirma o seu papel como principal polo de refinação da América do Sul, ainda que abaixo do seu potencial máximo face à capacidade instalada.

Portugal, com cerca de 0,25 Mb/d, ocupa uma posição bastante mais modesta no ranking global, situando-se claramente fora do top 30. O seu peso é residual à escala mundial, refletindo um sistema de refinação orientado sobretudo para o abastecimento do mercado interno.

Já Angola aparece no extremo inferior da lista, com um throughput próximo de 0,04 Mb/d, evidenciando uma capacidade de refinação muito limitada quando comparada com o seu papel relevante enquanto produtor de crude. A sua posição sublinha a forte dependência histórica de exportações de petróleo bruto e de importações de produtos refinados.


RANKING DE PAÍSES REFINADORES DE PETRÓLEO POR QUANTIDADES PROCESSADAS EM 2024:


  1. Estados Unidos – 16 623 barris/dia, b/d
  2. China – 14 290
  3. Índia – 5 300
  4. Rússia – 5 347
  5. Coreia do Sul – 3 409
  6. Japão – 2 501
  7. Brasil – 2 021
  8. Canadá – 2 258
  9. Arábia Saudita – 2 591
  10. Alemanha – 1 910
  11. Irão – 1 863
  12. Espanha – 1 282
  13. Taiwan – 1 250
  14. Kuwait – 1 235
  15. Países Baixos – 1 151
  16. Itália – 1 151
  17. Reino Unido – 1 061
  18. França – 956
  19. Singapura – 937
  20. Indonésia – 912
  21. Emirados Árabes Unidos – 991
  22. Tailândia – 1 470
  23. Malásia – 657
  24. Argélia – 703
  25. Bielorrússia – 505
  26. Egito – 512
  27. Argentina – 521
  28. Polónia – 579
  29. Bélgica – 552
  30. Cazaquistão – 402
  31. Colômbia – 432
  32. Grécia – 420
  33. Noruega – 325
  34. Vietname – 354
  35. Suécia – 354
  36. Qatar – 337
  37. África do Sul – 273
  38. Portugal – 252
  39. Israel – 250
  40. Paquistão – 250
  41. Roménia – 225
  42. Chile – 191
  43. Síria – 156
  44. Uzbequistão – 156
  45. Turquemenistão – 156
  46. Áustria – 145
  47. Chéquia – 145
  48. Bulgária – 145
  49. Ucrânia – 145
  50. Filipinas – 137
  51. Hungria – 131
  52. Azerbaijão – 131
  53. Eslováquia – 131
  54. Líbia – 132
  55. Finlândia – 132
  56. Equador – 135
  57. Sudão – 31
  58. Sri Lanka – 28
  59. Congo – 21
  60. Gabão – 14
  61. Angola – 40
  62. Bangladesh – 74
  63. Croácia – 54
  64. Myanmar – 37
  65. México – 191
  66. Venezuela – 370
  67. Nigéria – 248


Produção de Petróleo vs. Refinação de Petróleo em 2024:




No quadrante direita / cima concentram-se os países que combinam elevada capacidade de refinação com elevada produção de petróleo, refletindo sistemas energéticos amplamente integrados. O exemplo mais claro são os Estados Unidos, que surgem próximos da diagonal de equilíbrio entre produção e refinação, evidenciando uma cadeia de valor praticamente completa. O Brasil aproxima-se deste grupo, embora com um posicionamento menos equilibrado: apesar de ser um produtor relevante a nível global, a sua capacidade de refinação permanece insuficiente face à produção, o que o coloca ligeiramente acima da diagonal e traduz uma integração ainda incompleta entre upstream e downstream.

O quadrante direita / baixo é dominado por grandes hubs de refinação estruturalmente dependentes de importações de crude, como China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Estes países investiram fortemente em refinação por razões estratégicas, industriais e geopolíticas, apesar de possuírem produção doméstica limitada. Portugal enquadra-se neste mesmo padrão, ainda que à escala europeia: apresenta capacidade de refinação relevante face à sua dimensão económica, mas produção praticamente inexistente, assumindo um papel claro de importador líquido de crude e de produtos energéticos, dependente da estabilidade dos mercados internacionais.

No quadrante esquerda / cima encontram-se grandes produtores de petróleo com capacidade de refinação relativamente reduzida, como Angola, Nigéria, Noruega e Venezuela. Estes países são exportadores líquidos de crude, mas apresentam défices estruturais no downstream, o que os obriga frequentemente a importar combustíveis refinados. No caso de Angola, esta assimetria é particularmente marcada, evidenciando um modelo fortemente dependente da exportação de petróleo bruto. A Venezuela, apesar de deter uma das maiores reservas mundiais, surge também neste quadrante devido à degradação significativa da sua capacidade de refinação, ilustrando como constrangimentos económicos, técnicos e institucionais podem comprometer a integração da cadeia petrolífera.